A urna eletrônica brasileira registra e apura os votos da seção sem conexão com a internet. Ao encerrar a votação, produz um resultado local: o Boletim de Urna. Depois, esse resultado percorre outros equipamentos e sistemas até entrar na totalização e aparecer nos canais de divulgação. A página que mostra a contagem nacional não é a urna, e a transmissão não é o momento em que cada voto é contado pela primeira vez.
Hoje, domingo, 25 de outubro, é dia do segundo turno das eleições de 2026. Para compreender a tecnologia nesse percurso, é preciso examinar mais do que o teclado: hardware, programas, preparação, identificação, registros, transporte e conferência têm funções diferentes. Este especial faz uma análise documental dessas camadas; não é uma desmontagem física nem uma auditoria independente realizada pelo Ponto Nulo.
Neste artigo
O caminho completo, antes de abrir cada camada
Há pelo menos três operações que costumam receber o mesmo nome na conversa cotidiana:
| Operação | Onde acontece | Qual resultado produz |
|---|---|---|
| Apuração da seção | Na urna, ao terminar a votação | Totais registrados no Boletim de Urna |
| Totalização | Nos sistemas da Justiça Eleitoral | Consolidação dos resultados recebidos das seções |
| Divulgação | Nos canais de consulta | Apresentação dos dados ao público |
Essa separação, descrita pelo TSE para as eleições de 2026, permite fazer perguntas mais precisas. Uma demora no transporte de uma mídia não é necessariamente uma demora para a urna contar votos. Um problema na exibição de uma página tampouco demonstra alteração no arquivo de resultado. Cada ocorrência precisa ser investigada na camada em que aconteceu.
O percurso normal pode ser resumido assim: preparar o equipamento e os dados da seção; verificar sua abertura; habilitar cada eleitor; registrar votos; encerrar e emitir o boletim; levar os arquivos ao ponto de transmissão; validar e totalizar os resultados; divulgar e permitir sua conferência.
O hardware: um computador dedicado, não um PC de uso geral
O conjunto inclui o terminal usado pelo eleitor e o terminal do mesário. Há teclado, tela, armazenamento, impressora, alimentação e componentes de segurança. As configurações variam conforme a geração; “urna eletrônica” não designa uma única placa que permaneceu igual desde os anos 1990.
Como referência concreta, a ficha técnica oficial da UE2022 informa:
| Componente da UE2022 | Especificação publicada |
|---|---|
| Processador | Intel Atom E3940, 1,60 GHz |
| Memória de trabalho | 4 GB DDR3L |
| Armazenamento | 4 GB, M.2 SATA |
| Tela do eleitor | LCD colorido de 10,1 polegadas |
| Entrada do eleitor | Teclado mecânico |
| Terminal do mesário | Tela sensível ao toque |
| Impressão | Impressora térmica USB com comunicação cifrada |
| Biometria | Leitor HID DP 5360 com comunicação cifrada |
| Bateria | LiFePO4 de 9 Ah |
Memória RAM e armazenamento têm funções distintas, mesmo com a mesma capacidade nominal nessa ficha. A RAM atende à execução; armazenamento conserva dados sem depender de manter aquele conteúdo na RAM. Já 9 Ah é capacidade de carga da bateria, não uma promessa de nove horas de autonomia: o consumo e as condições de uso também importam.
A tabela comparativa de configurações mostra diferenças entre gerações. Por isso, essa ficha não deve ser atribuída a todo equipamento de 2026, nem o nome UE2022 confundido com exclusividade de uso naquele ano. Para afirmar a composição da frota de uma eleição, seria necessário consultar o inventário correspondente.
O objetivo do hardware não é rodar qualquer aplicativo que o usuário escolha. A urna tem um trabalho delimitado e um processo controlado de preparação. A segurança, porém, não decorre de ter pouca memória, ser lenta ou parecer simples: depende de quais programas e dados ela aceita e de como isso pode ser fiscalizado.
Software, Linux e a cadeia de inicialização
Segundo a descrição técnica do TSE, reproduzida pelo TRE-SC sobre o software da urna, o equipamento usa uma distribuição Linux própria, chamada Uenux, e programas eleitorais desenvolvidos para sua função. Linux é a base do sistema operacional; não é, sozinho, o programa que registra votos.
A mesma documentação descreve uma cadeia de verificações que começa no hardware e alcança as etapas de inicialização e o software. A ideia é que o equipamento verifique a autenticidade do que vai executar, em vez de aceitar arbitrariamente um sistema gravado numa mídia. Isso é diferente de depender apenas de um antivírus depois de iniciar um computador comum.
Convém separar três conceitos que aparecem nessa arquitetura:
| Mecanismo | Pergunta que ajuda a responder | O que não responde sozinho |
|---|---|---|
| Hash, ou resumo digital | Este conteúdo coincide com uma referência confiável? | Quem produziu a referência ou se o programa contém defeitos |
| Assinatura digital | A assinatura é válida para estes dados e para a chave verificada? | Se qualquer decisão tomada pelo programa é correta |
| Cifração | Como restringir a leitura sem a chave adequada? | Se o conteúdo é verdadeiro ou o procedimento foi bem executado |
Uma assinatura válida não torna um software infalível. Esse limite também existe na verificação de imagens de contêiner e identidade do publicador: autenticidade, autorização e correção do comportamento são propriedades distintas. O princípio criptográfico ajuda a entender a urna, sem tornar os dois ambientes equivalentes.
Antes do domingo: código, preparação e lacração
A fiscalização começa antes de o equipamento chegar à seção. O programa de auditoria e fiscalização da Justiça Eleitoral prevê acesso ao código por entidades legitimadas, em condições específicas, além de acompanhamento de compilação, assinatura e lacração dos sistemas. Isso não equivale a dizer que toda a aplicação eleitoral está publicada num repositório aberto para qualquer pessoa baixar e reconstruir.
Também é necessário preparar dados da eleição e da seção, carregar os equipamentos e cumprir os procedimentos físicos de conferência e guarda. Lacrar o equipamento e assinar digitalmente um programa são controles diferentes: um trata da intervenção física e sua rastreabilidade; o outro, da autenticidade dos dados ou executáveis.
Para 2026, o TSE mantém uma página de resumos digitais dos sistemas do primeiro e do segundo turnos. Ela inclui componentes de preparação, transporte e totalização, não apenas o programa dentro da urna. Também explica exceções para arquivos de configuração gerados localmente, como uenux.cfg e avbootcfg.vsu.
Esse detalhe impede uma conclusão apressada: não encontrar determinado arquivo numa lista pública não basta para classificá-lo como adulterado. Primeiro é preciso conhecer o escopo daquela lista e o procedimento de verificação aplicável. No sentido inverso, baixar uma lista de hashes não comprova quais arquivos estavam instalados numa urna específica. Essa correspondência precisa ser efetivamente verificada.
Na abertura: o que a zerésima registra
Antes de receber votos, a seção emite a zerésima, relatório que apresenta a identificação e os contadores sem votos registrados. O Manual do Mesário de 2026 descreve a conferência, as assinaturas e a afixação do resumo em local visível.
A zerésima é uma evidência do estado inicial informado pelo sistema. Ela não substitui a verificação do software, a fiscalização da preparação ou os controles posteriores. A utilidade está em compor uma sequência documentada: estado de abertura, funcionamento durante o dia e resultado de encerramento.
Não é tecnicamente correto exigir que um único papel prove todas as propriedades do equipamento. Também não é correto descartá-lo por não conseguir fazê-lo. A pergunta é qual afirmação aquele registro permite conferir e com quais outros elementos ele deve ser comparado.
Identificar o eleitor não é identificar seu voto
O mesário usa seu terminal para realizar a identificação e habilitar a votação conforme o procedimento aplicável. A biometria participa dessa identificação; não serve para anexar uma impressão digital à escolha de candidato. O manual de 2026 também prevê situações de identificação sem reconhecimento biométrico bem-sucedido e os procedimentos correspondentes. O leitor não deve interpretar uma falha biométrica isolada como prova de perda ou de exposição de voto.
Há duas necessidades que precisam coexistir: controlar a habilitação para votar e preservar o sigilo da escolha. São responsabilidades diferentes. Dados que identificam a pessoa ou registram sua habilitação não devem ser confundidos com uma lista que associa nomes aos candidatos escolhidos.
A interface do eleitor, por sua vez, permite digitar, conferir e confirmar a escolha. O registro confirmado segue para estruturas de dados eleitorais; não vira uma mensagem individual enviada pela internet ao TSE a cada tecla pressionada.
RDV, boletim e log: três registros, três funções
O Registro Digital do Voto, ou RDV, guarda os votos individualizados por cargo sem uma sequência que reproduza a ordem da fila. A explicação técnica do TSE descreve a gravação em posições aleatórias para evitar a associação entre ordem de comparecimento e escolha. A página é de 2024; essa arquitetura não deve ser confundida com as datas daquele pleito.
Para o processo de 2026, a Resolução 23.751, em sua redação compilada, prevê atualização e assinatura do RDV após a confirmação dos votos, além da geração dos arquivos de encerramento.
| Registro | Conteúdo e finalidade | Limite importante |
|---|---|---|
| RDV | Registros digitais usados para recompor a contagem | Não é um recibo individual que liga eleitor e candidato |
| Boletim de Urna, ou BU | Resultado agregado daquela seção | Não mostra a escolha de uma pessoa identificada |
| Log | Eventos operacionais do funcionamento do sistema | Não deve ser lido como uma lista cronológica de votos por candidato |
Uma recontagem a partir do RDV e a comparação com o BU verificam consistência entre registros digitais. Isso não equivale a recontar cédulas individuais independentes do sistema. A diferença importa para avaliar o alcance de cada auditoria, sem atribuir a um procedimento uma prova que ele não produz.
O comprovante de comparecimento do eleitor também não é comprovante de voto em determinado candidato. A inexistência dessa associação verificável pelo eleitor é compatível com o sigilo; o documento não deve ser usado para tentar demonstrar uma escolha individual.
No encerramento: primeiro a seção, depois a transmissão
Encerrada a votação, a urna gera seu boletim, com totais por candidato e demais informações de identificação e contagem. O papel existe antes de a mídia de resultado seguir para transmissão. A descrição do TSE sobre o primeiro turno de 2026 apresenta a emissão normal de cinco vias obrigatórias e a disponibilidade de QR Code para leitura dos dados.
O BU permite comparar uma evidência obtida na seção com o resultado divulgado para a mesma seção. Ele não transforma cada eleitor em portador de um recibo da sua escolha; o que fica público são os totais.
A mídia de resultado transporta os arquivos para um equipamento de transmissão. Nesse estágio há comunicação de rede: o TSE descreve o uso do JEConnect, de uma VPN e de verificações de assinatura. A urna ficar desconectada durante a votação não significa que toda a infraestrutura eleitoral dispense redes.
São fronteiras diferentes. Restringir comunicação da urna reduz certas formas de acesso remoto, mas não elimina a necessidade de proteger software, mídias, preparação e cadeia de custódia. Proteger o transporte, por sua vez, não substitui conferir a origem do resultado.
Totalização não é somar qualquer arquivo recebido
O sistema precisa reconhecer resultados válidos e sua correspondência com a eleição e a seção, tratar ocorrências e consolidar o que foi aceito. A resolução de 2026 distingue a leitura de mídias, o processamento pelo Sistema de Totalização, as situações de recuperação e os procedimentos das juntas eleitorais. Não é apenas uma planilha que aceita números enviados por qualquer computador.
Há ainda uma diferença entre quantidade de seções processadas e quantidade de votos. Num exemplo inteiramente hipotético, duas seções podem ter 100 e 500 votos. Processar a primeira representa 50% das seções, mas apenas um sexto dos 600 votos do exemplo. A diferença não demonstra anomalia: os denominadores são distintos.
Por isso, percentuais de andamento precisam ser lidos com seu rótulo. A chegada dos resultados não é uma amostra aleatória de mesmo tamanho, e uma atualização da tela não representa o processamento simultâneo de todas as seções. Nada disso permite antecipar resultados de uma eleição a partir deste exemplo.
Energia, falhas e contingência também fazem parte do sistema
Ter bateria ajuda a lidar com interrupções de energia, mas não torna o equipamento imune a defeitos. O manual orienta a equipe a registrar ocorrências e acionar o suporte eleitoral. As alternativas dependem do momento e do tipo de falha; não são procedimentos para o eleitor improvisar.
A norma de 2026 prevê recuperação de dados e outras formas de processamento sob responsabilidade da Justiça Eleitoral. Também trata expressamente de hipóteses de perda irrecuperável, com consequências próprias. Portanto, seria incorreto transformar “há redundância e contingência” em “é impossível perder dados”.
Para examinar uma ocorrência concreta, seria necessário reunir a ata, os registros do equipamento, a identificação das mídias, a medida adotada e o resultado final. Uma foto de uma tela ou um número agregado de equipamentos substituídos não responde sozinho se votos foram afetados.
Que testes são feitos, e até onde eles alcançam
Auditorias diferentes procuram falhas diferentes. Na fiscalização de autenticidade, compara-se o software com as referências aplicáveis. No Teste de Integridade, uma votação de teste previamente documentada é realizada e comparada com o resultado do equipamento, sob condições definidas. O portal de fiscalização descreve esses procedimentos.
O Teste Público de Segurança tem outra função: permitir investigação técnica de possíveis fragilidades dentro de um escopo. Em maio de 2026, o TSE relatou testes de confirmação de melhorias relacionadas aos trabalhos de 2025. Esse relato trata dos testes e correções examinados; não é prova de que nenhuma vulnerabilidade possa existir em qualquer componente ou situação.
O TCU anunciou acompanhamento dos testes de integridade em 2026, incluindo locais com segundo turno. O anúncio previa relatório após a eleição. Anunciar a fiscalização não equivale a ter publicado sua conclusão: não há, neste texto, um parecer final antecipado sobre o dia 25.
Uma avaliação séria precisa preservar o objeto e o alcance de cada evidência:
| Evidência | Pergunta específica | Conclusão que seria excessiva |
|---|---|---|
| Código inspecionado | Há problemas encontrados nessa implementação e nesse exame? | Todo defeito possível foi eliminado |
| Hash conferido | O arquivo comparado corresponde à referência? | O programa está correto em qualquer cenário |
| Teste de integridade | O resultado corresponde aos votos de teste registrados? | Todas as urnas foram testadas da mesma maneira |
| BU local comparado ao divulgado | Os totais daquela seção coincidem nas duas fontes? | Toda camada anterior foi auditada por essa comparação |
| Log e ata examinados | Quais eventos e ocorrências foram registrados? | Um registro isolado explica todo o contexto |
Esses limites não anulam os controles. Eles indicam por que o sistema usa uma combinação de verificações e por que resultados de auditoria precisam trazer método, escopo e achados, em vez de apenas uma afirmação genérica de segurança.
O que é possível conferir sem abrir uma urna
O ponto de partida mais acessível é a comparação do BU da seção com o boletim correspondente nos canais oficiais. Use o acesso a resultados e a arquivos de urna indicado pelo TSE, confirme a eleição, o turno, o município, a zona e a seção, inclusive eventuais agregações. Só então compare os totais por candidato, brancos e nulos.
Não compare seções diferentes pelo mesmo número sem considerar município e zona. Também não confunda eleitores aptos com comparecimento ou com votos de um cargo. São campos distintos, e uma diferença entre eles exige interpretação do documento, não uma subtração sem contexto.
Se houver divergência real, preserve os documentos e seus identificadores e procure o canal oficial responsável para apuração. Publicar uma hipótese como fato antes dessa conferência acrescenta ruído justamente à verificação que se pretende fazer.
A leitura técnica da urna termina onde começou: com o percurso completo. O equipamento registra e apura; os sistemas de transporte e totalização recebem e consolidam; os canais de divulgação apresentam; registros e fiscalização permitem conferir partes desse caminho. Entender essas fronteiras é mais útil do que atribuir toda a confiança, ou toda a suspeita, a uma única peça de hardware.
Foto de capa: urna UE2020 e terminal do mesário, de Antonio Augusto/Secom/TSE, fotografados em 13/12/2021. Reprodução editorial permitida pelo TSE com crédito ao autor. Redimensionada, sem alteração de conteúdo. A foto não mostra a UE2022 da ficha técnica nem a votação de 2026.